sexta-feira, 18 de setembro de 2009

(mesmo que seja) Amor e carinho


Saio de cima dela. É um ato indesejado, sem dúvida, mas preciso ir. Preciso sair deste lugar. Me visto ainda sentado na cama e sinto sua mão acariciando minhas costas. Um dos muitos atos de carinho que sofri nesta madrugada. Só quero ir embora. Quero voltar a ser somente um cadáver contraditório que vaga as ruas de Copacabana. Então me retiro quando sinto sua mão cair e sei que adormeceu.

A leitura de Sofia Folhas já havia acabado. Não apareceu e os convidados se retiraram. Não conseguia ler enquanto gemia de costas para mim com o peito encostado contra o colchão improvisado que encontramos no segundo andar do casarão escolhido no bairro. Os seus convidados esperaram, esperaram, e se foram. Assim como o vinho de graça. E a cachaça. Eu tropeçava, ainda com o odor da autora celebrada naquela noite, de uma porta do salão vazio em direção a outra. Sofia merecia dormir. Afinal, havia estragado sua primeira leitura no Rio e agora pretendia sumir. Abaixei a cabeça, mas não fiquei “cabisbaixo”, e andei até meu apartamento, distância de poucos quarteirões. Ainda sentia o cheiro do vinho barato misturado com o cheiro de sexo, dois odores inconfundíveis.

Chegando no meu prédio fui recebido pelo porteiro e a ótima notícia que o cabo do elevador estava “escangalhado”. O xinguei, por falta de alvo, e continuei minha maratona, agora teria que subir escadas. Escada após escada via a sujeira acumulada entre cada degrau e o sofrimento da área que provavelmente só havia frequentado três ou quatro vezes nos últimos anos.

Como um fumante exausto e sem ar, cheguei no meu andar. Horizontalidade. Havia esquecido o quanto era bom saber que o meu próximo passo não teria que levantar esta carcaça que chamo de corpo. Abro a minha porta e a vejo acordada e bebendo. Laura usava uma camisa desabotada que certamente era minha e nada mais. Me olhou com olhar de desprezo e falou:

- não está bêbado o suficiente. Vai ser sincero. Não quero você sincero. Vem beber. – Me sentei.
- não saiu?
- já voltei. Como foi a leitura daquela mocinha. Comeu ela de novo? Pelo seu cheiro...
- foi uma merda. Não sei como achei que aquela menina era talentosa. – virei meio copo de cachaça.
- comeu, certamente, – riu – você sempre faz isso. Só admira a pessoa até gozar dentro dela. Depois ela é só mais “uma”. Sofia Folhas, né? A menina do “Esperança”. Li o livro e achei de qualidade. Você me recomendou, aliás. – Verdade, eu havia lhe dado o manuscrito.
- e você, Laura, – virei o quarto copo de cachaça – o que faz aqui? É o amor por esse autor morto que nunca vai ser citado no “Prosa e Verso” ou naquela merdinha de jornal literário de bairro que considerou você um dos mais promissores talentos poéticos deste ano? – tentei acabar com esse assunto, sabendo que ela acredita tanto no amor quanto eu. Também tinha tanto nojo de seus prêmios quanto eu.
- pode ser. Acho que lhe considero meu consolo humano, de todas as formas. Sou uma parasita assumida. E você é um merda, alguma dúvida?

Levantei e antes que pudesse ir para o meu quarto senti uma mão no meu peito e outra descendo a minha barriga. Laura me abraçava e mordia minha orelha. Falava obscenidades no meu ouvido. E fazia sentido. Gostava de mim assim, acabado. Cada um com o seu fetiche.

Laura, uma eterna apaixonada por mim. Pouco me importo. É sempre bom chegar em casa para uma mulher seminua querendo te dar, mesmo que seja amor e carinho.

Arnaldo Pereira



quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Fumaça


Hoje voltei a fumar. Foi uma delícia por um maço inteiro, pois assim contei o tempo.

Não lembrava mais por que havia parado. Nunca liguei para a minha saúde e, verdade, ter o domínio de um bastão fálico em chamas entre meus dedos faz com que eu me sinta “cool”. E seguro, auto estima nas nuvens. Esquecia todas minhas inseguranças e sentia que era dever da raça feminina se ajoelhar à minha frente e pedir um cigarro, somente um, para que pudesse negar e esnobar. Como fumante me comparava aos grandes homens dos anos cinquenta e me dava o direito de ser esnobe. Não me faltava esta imagem.

E eu era este esnobe que poluía, com prazeres quase eróticos, o rosto dos meus jovens leitores que se sentaram a minha frente na noite do meu grande lançamento. Nunca me esquecerei de quando era aquele jovem arrogante que só via dificuldades com fósforos ao abusar da superioridade hierárquica de ser o autor de sucesso perto de fãs que pagavam pelas suas palavras. Me via como uma mistura de Carlos Drummond de Andrade com James Dean.

Agora me vejo com olhos mais amadurecidos. No entanto, o amadurecimento não mudou o prazer tântrico daquele maço. Marlboro. Sim, me fiz o clichê, comprei o maço que já dominou toda uma cultura pop. Não comprei um isqueiro, sou fã da utilização de fósforos como os condutores da chama que fará do meu cigarro arma odiado por todos e venerada por mim. Vejo o fogo tão levemente translúcido queimar o bastão que posso admitir me dar o maior prazer, sem pensar em sexualidade, do primeiro ao último trago.

***

- vem Arnaldo. Ela diz, nua enquanto me sento de costas ao pé da cama.
- silêncio, me deixa terminar este último cigarro. Digo lendo uma revista que posa na minha mão sem a minha atenção enquanto chovem cinzas na foto que perdia seu propósito e virava lentamente um cinzeiro.
- tira a cara desta revista e larga este cigarro. Vem me comer...
- fica quieta, me deixa aproveitar esse último. E assim foi o meu último cigarro.

Após o sexo, Laura se rendeu ao clichê hollywoodiano de acender um cigarro. Eu, no entanto, não. Assisti aquela cena, a cara de boba, me olhando de baixo para cima, Laura se tornava só mais uma, facilmente esquecível na multidão de fumantes pós sexo. E nunca deixaria de ser só mais uma, enquanto continuasse se rendendo de tal forma a este enquadramento desta personagem.

Olhei, então, para o maço que havia consumido com tanto prazer e percebi que o meu clichê era outro. E se render na vida é sempre mais fácil.

- o que houve? Perguntou Laura a me ver levantando e me arrastando em direção à cozinha.
- preciso de uma cachaça.

Hoje parei de fumar.

Arnaldo Pereira



sábado, 1 de agosto de 2009

Bruxaria


Descobri a pouco que este relato pode ofender um grupo chamado Wicca. Então peço que não me encham o saco e parem de ler neste momento, pois não vão gostar do que lerão a seguir.

***

Algumas semanas após um breve julgamento por causa da morte do meu vizinho em que fui visto como um suspeito de homicídio (até acharem uma carta de suicídio), me mudei para o apartamento vizinho. Estava tendo dificuldades em arrumar meu escritório quando Laura entrou pela porta estilhaçando minha concentração me provocando um susto inexplicável. Estava mais animada que o normal.

Até agora não a via sorrir tanto, reprovava a mudança. Alguma coisa com karma, como se eu devesse me importar com a morte do coroa e o fato que eu sempre o tratei como um pedaço de merda no meu sapato. Mas vamos seguir:

- não consegue arrumar sua mesa, disse Laura, você lembra de quem era esse escritório?
- você não veio me falar do coroa de novo, né?
- não, não. Abanou as mãos como se pedisse paz. Tenho uma amiga que esta vindo para o Rio e não tem onde ficar. Pensei...
- não, a interrompi.
- me escuta, Arnaldo. Já confirmei com ela.
- então assume ela, não vou trocar uma palavra com ela. E próxima vez lembra que esse apartamento é meu. Você só esta aqui por que... sinceramente, não sei responder essa pergunta, Laura.
- porque você me ama, lindo...
- agora estou preocupado. Sei que acredita tanto em amor quanto eu.
- Pamela vai ficar no quarto extra, de hospedes, se já o chamamos assim. Viajo no dia que ela chega.
- você tem algum lançamento ou leitura?
- lançamento em Recife do meu livro, você não lembra de nada, né?
- não.
- e outra coisa, ela é Wicca.

E pronto, não conversamos mais até Laura voltar de Recife. Também não achei nada estranho no mencionar de Pamela ser Wicca, na verdade ouvi que era “ruiva”. Laura não costuma falar nem o nome de suas amigas, eu devia ter achado no mínimo estranho.

***

Pamela era uma ruiva (coincidência, ou manipulação de personagens?), alta, tinha as unhas pintadas de verde escuro. Reparei nas unhas, pois nos encontramos pegando o jornal. Ela parecia estar chegando de alguma escalada, estava toda suja carregando uma sacola de lixo cheia de galho e folhas. Dei-lhe bom dia, mas correu quieta para o seu quarto. Gritei por cima da minha ressaca, passei a noite com uma pequena garrafa de cachaça me fazendo companhia (verdade, nem vou falar que tentei escrever):

- ei, o grosso deste apartamento sou eu! Olhei para o chão e vi uma trilha de terra da porta até o quarto. E que merda é essa que deixou pela sala?!

Olhei o relógio da sala. Onze horas da manhã. Cedo demais. Voltei para o meu quarto e no caminho dei um soco na porta do quarto de Pamela, por um segundo esquecendo que não era Laura. Gritei agressivamente por café e me deitei.

Quando acordei já eram três da tarde. Saí do meu quarto e olhei para o chão. Estava limpo. Olhei para a mesa. Café. Já não entendia nada. Será que havia sonhado que uma louca estava ocupando um quarto no meu apartamento?

- peço desculpas, Arnaldo. Fiz café. Pediu, né?
- obrigado, mas preciso perguntar o que fazia com metade da vegetação de Copacabana aqui dentro. Assim que eu começava a suspeitar um ser humano normal sentando-se à mesa comigo, me surpreendeu:
- Foi um pedido direto da Alta Sacerdotisa. Hoje a lua cheia está perfeita para o Esbbat, que será mais facilmente observado neste ponto pela Deusa Mãe, fonte da vida e nossa protetora.

Ficamos em silêncio. Ao terminar a sua bela historinha ficou a me encarar como se eu tivesse que engolir esta merda a seco.

- mudei de ideia, não quero mais o café me passa aquela cachaça.
- o que foi? Parece confuso.
- não vem com bruxaria pra dentro do meu apartamento.
- não é bruxaria. É Wicca.
- ai meu Deus.
- Deusa, me corrigiu, hoje seremos olhados pela Deusa Mãe. O Grande Deus Pai ainda esta por vir, com todo o seu amor. Achei que sabia mais, pelo que já li de sua autoria você me parecia bem inteligente.
- quem sabe destas inutilidades é Paulo Coelho. Eu leio as pessoas. Eu leio você e no momento você é uma das pessoas mais loucas que já vi. E eu sou de Copa, vejo gente louca todos os dias... Nem quero entrar naquele quarto.
- você trata todas as suas convidadas assim?
- não, primeiro as trato com sexo. No caso, me imagine como “O Grande Deus Pai”.
- vou me retirar amanhã pela manhã.
- após o ritual, falei com deboche no tom de voz.
- isso mesmo, se virou e falou ao bater a porta, e tem razão, você é o “grosso da casa”.

Saí pela porta da frente e fui beber uma cachaça. Não me lembro daquela tarde. Só queria ver aquela louca pelas costas. Ou nem isso, não queria vê-la, ponto.

E foi exatamente isso que aconteceu.

Dia seguinte acordei na sala sem camisa com algo gelado nas minhas costas. Levei um susto e me joguei no chão. Escutei o barulho de chave. Havia deixado as chaves do apartamento nas minhas costas e um bilhete. Deixou uma diária e uma recomendação como último adeus:

“Querido “Grande Deus Pai”,
Após a minha “bruxaria” (nas suas palavras) não recomendo que entre mais no seu quarto de hóspedes. Algo deu errado na noite de ontem. Muito errado. Por mais que você seja um tolo, idiota e grosso, vou te deixar um conselho: deixe este apartamento assim que possível. Pelo bem de Laura.
Pamela “Yaba” Carvalho”


***

Quando Laura voltou, encontrou o apartamento vazio. Eu estava sentado de volta no meu bom e velho escritório, onde tudo fazia sentido. Tudo pequeno e cinza. Do jeito que eu gostava.

- o que te fez desistir do apê, Arnaldo?
- não consegui achar um lugar bom pra colocar minha mesa.
- que bom, aquele lugar me dava os calafrios.
- e outra coisa, Laura, próxima vez que trouxer uma bruxa pro apartamento, você esta fora.

Arnaldo Pereira



sábado, 4 de julho de 2009

O valor de um apê


Já dentro do meu prédio pude ver algo muito estranho: A minha caixa de correio estava cheia. Peguei as cartas e subi para o meu apartamento. Meu vizinho me encontrou saindo cheio de cartas e resolveu me ajudar. Recusei a ajuda. Desde que sua mulher havia sido assassinada, o velho havia desenvolvido uma cleptomania incontrolável. Não pude evitar e quatro cartas caíram nos meus pés. O senhor, para minha infelicidade, se abaixou e me ajudou, falou algo de a minha geração não estar acostumada com cartas.

Entrei no apartamento chamando por Laura, mas não obtive resposta. Meu vizinho não saía do meu pé e eu realmente queria auxílio para vigiar os meus pertences. Perguntou sobre o meu caso com Laura e preferi não responder, e repleto de maldade perguntei sobre a sua mulher assassinada. Como estava a sua vida sem sua alma gêmea. Não acredito em “karma”, ele que se foda.

Pude ver sua expressão mudar na hora. Resmungou algo, deixou as minhas cartas (todas, conferi) na minha mesa de trabalho e saiu sem se despedir. Fui até a cozinha pegar um vinho e trouxe logo a garrafa, sem taças. Tirei o telefone do gancho e me sentei, eu e uma pilha de cartas.

Cartas são valiosas. Acredito em cartas.

Quando me sentei escutei a porta. Era Laura:

- esta escrevendo? Sentado na sua mesa... estranho. Aliás, falando em estranho, sabe aquele seu abridor de cartas prateado? O coroa aqui do lado me passou no corredor e ele tem um igualzinho.

- filha da puta! Idoso cleptomaníaco, porque Annie não matou logo os dois?!

Olhei para a minha mesa, realmente havia me roubado. Normalmente eu não me importaria, mas queria ler minhas cartas. Sei que não precisava daquela faca específica pra abrir os simples envelopes, mas gosto de dar esporros. Faz parte de que eu sou.

- era o seu?

- porra Laura, você sabe que eu ganhei aquilo pelo número de exemplares vendidos do meu livro! Tive dificuldades de terminar essa frase sem rir. No dia que ligar para esse tipo de coisa me matem.

- ai Arnaldo, você sabe como você me deixa quando fala assim comigo, disse de forma sensual, vamos pra cama, vamos.

Virei de costas e pude sentir suas mãos arranhando meu peito enquanto me apertava por trás. A verdade é que não virava e me aproveitava daquela cadela no cio naquele instante por orgulho. Aquele velho havia me roubado e queria tirar satisfações. Soltei as garras de tigresa e afastei a minha orelha daquela língua ágil de serpente. Andei até o apartamento vizinho e bati na porta do velho.

Assim que bati em sua porta notei algo estranho, pois a porta não só não estava trancada como estava encostada e se abriu com o meu leve toque. Olhei o seu apartamento (não pude sentir inveja, era maior do que o meu). Chamei a Laura pra ver a minha o meu azar e confirmou que me fudi com o apê menor. Distraído com um belo quarto onde já sonhava com uma bela sala de trabalho ouvi um grito vindo do banheiro.

- ai meu Deus, ai meu Deus! Arnaldo chama a polícia! O velho se matou na banheira!

- e olha só, falei expressando curiosidade e acalmando-a, ele usou meu abridor de cartas pra cortar os pulsos.

A minha calma pareceu incomodar Laura. Me retirei e liguei para a polícia. Expliquei tudo, mas a verdade é que não conseguia tirar uma dúvida da minha cabeça, por mais inadequado que fosse o momento para me perguntar isto: quanto será que ele pagava de aluguel?

Arnaldo Pereira