Saio de cima dela. É um ato indesejado, sem dúvida, mas preciso ir. Preciso sair deste lugar. Me visto ainda sentado na cama e sinto sua mão acariciando minhas costas. Um dos muitos atos de carinho que sofri nesta madrugada. Só quero ir embora. Quero voltar a ser somente um cadáver contraditório que vaga as ruas de Copacabana. Então me retiro quando sinto sua mão cair e sei que adormeceu.
A leitura de Sofia Folhas já havia acabado. Não apareceu e os convidados se retiraram. Não conseguia ler enquanto gemia de costas para mim com o peito encostado contra o colchão improvisado que encontramos no segundo andar do casarão escolhido no bairro. Os seus convidados esperaram, esperaram, e se foram. Assim como o vinho de graça. E a cachaça. Eu tropeçava, ainda com o odor da autora celebrada naquela noite, de uma porta do salão vazio em direção a outra. Sofia merecia dormir. Afinal, havia estragado sua primeira leitura no Rio e agora pretendia sumir. Abaixei a cabeça, mas não fiquei “cabisbaixo”, e andei até meu apartamento, distância de poucos quarteirões. Ainda sentia o cheiro do vinho barato misturado com o cheiro de sexo, dois odores inconfundíveis.
Chegando no meu prédio fui recebido pelo porteiro e a ótima notícia que o cabo do elevador estava “escangalhado”. O xinguei, por falta de alvo, e continuei minha maratona, agora teria que subir escadas. Escada após escada via a sujeira acumulada entre cada degrau e o sofrimento da área que provavelmente só havia frequentado três ou quatro vezes nos últimos anos.
Como um fumante exausto e sem ar, cheguei no meu andar. Horizontalidade. Havia esquecido o quanto era bom saber que o meu próximo passo não teria que levantar esta carcaça que chamo de corpo. Abro a minha porta e a vejo acordada e bebendo. Laura usava uma camisa desabotada que certamente era minha e nada mais. Me olhou com olhar de desprezo e falou:
- não está bêbado o suficiente. Vai ser sincero. Não quero você sincero. Vem beber. – Me sentei.
- não saiu?
- já voltei. Como foi a leitura daquela mocinha. Comeu ela de novo? Pelo seu cheiro...
- foi uma merda. Não sei como achei que aquela menina era talentosa. – virei meio copo de cachaça.
- comeu, certamente, – riu – você sempre faz isso. Só admira a pessoa até gozar dentro dela. Depois ela é só mais “uma”. Sofia Folhas, né? A menina do “Esperança”. Li o livro e achei de qualidade. Você me recomendou, aliás. – Verdade, eu havia lhe dado o manuscrito.
- e você, Laura, – virei o quarto copo de cachaça – o que faz aqui? É o amor por esse autor morto que nunca vai ser citado no “Prosa e Verso” ou naquela merdinha de jornal literário de bairro que considerou você um dos mais promissores talentos poéticos deste ano? – tentei acabar com esse assunto, sabendo que ela acredita tanto no amor quanto eu. Também tinha tanto nojo de seus prêmios quanto eu.
- pode ser. Acho que lhe considero meu consolo humano, de todas as formas. Sou uma parasita assumida. E você é um merda, alguma dúvida?
Levantei e antes que pudesse ir para o meu quarto senti uma mão no meu peito e outra descendo a minha barriga. Laura me abraçava e mordia minha orelha. Falava obscenidades no meu ouvido. E fazia sentido. Gostava de mim assim, acabado. Cada um com o seu fetiche.
Laura, uma eterna apaixonada por mim. Pouco me importo. É sempre bom chegar em casa para uma mulher seminua querendo te dar, mesmo que seja amor e carinho.
Arnaldo Pereira



