sábado, 4 de julho de 2009

O valor de um apê


Já dentro do meu prédio pude ver algo muito estranho: A minha caixa de correio estava cheia. Peguei as cartas e subi para o meu apartamento. Meu vizinho me encontrou saindo cheio de cartas e resolveu me ajudar. Recusei a ajuda. Desde que sua mulher havia sido assassinada, o velho havia desenvolvido uma cleptomania incontrolável. Não pude evitar e quatro cartas caíram nos meus pés. O senhor, para minha infelicidade, se abaixou e me ajudou, falou algo de a minha geração não estar acostumada com cartas.

Entrei no apartamento chamando por Laura, mas não obtive resposta. Meu vizinho não saía do meu pé e eu realmente queria auxílio para vigiar os meus pertences. Perguntou sobre o meu caso com Laura e preferi não responder, e repleto de maldade perguntei sobre a sua mulher assassinada. Como estava a sua vida sem sua alma gêmea. Não acredito em “karma”, ele que se foda.

Pude ver sua expressão mudar na hora. Resmungou algo, deixou as minhas cartas (todas, conferi) na minha mesa de trabalho e saiu sem se despedir. Fui até a cozinha pegar um vinho e trouxe logo a garrafa, sem taças. Tirei o telefone do gancho e me sentei, eu e uma pilha de cartas.

Cartas são valiosas. Acredito em cartas.

Quando me sentei escutei a porta. Era Laura:

- esta escrevendo? Sentado na sua mesa... estranho. Aliás, falando em estranho, sabe aquele seu abridor de cartas prateado? O coroa aqui do lado me passou no corredor e ele tem um igualzinho.

- filha da puta! Idoso cleptomaníaco, porque Annie não matou logo os dois?!

Olhei para a minha mesa, realmente havia me roubado. Normalmente eu não me importaria, mas queria ler minhas cartas. Sei que não precisava daquela faca específica pra abrir os simples envelopes, mas gosto de dar esporros. Faz parte de que eu sou.

- era o seu?

- porra Laura, você sabe que eu ganhei aquilo pelo número de exemplares vendidos do meu livro! Tive dificuldades de terminar essa frase sem rir. No dia que ligar para esse tipo de coisa me matem.

- ai Arnaldo, você sabe como você me deixa quando fala assim comigo, disse de forma sensual, vamos pra cama, vamos.

Virei de costas e pude sentir suas mãos arranhando meu peito enquanto me apertava por trás. A verdade é que não virava e me aproveitava daquela cadela no cio naquele instante por orgulho. Aquele velho havia me roubado e queria tirar satisfações. Soltei as garras de tigresa e afastei a minha orelha daquela língua ágil de serpente. Andei até o apartamento vizinho e bati na porta do velho.

Assim que bati em sua porta notei algo estranho, pois a porta não só não estava trancada como estava encostada e se abriu com o meu leve toque. Olhei o seu apartamento (não pude sentir inveja, era maior do que o meu). Chamei a Laura pra ver a minha o meu azar e confirmou que me fudi com o apê menor. Distraído com um belo quarto onde já sonhava com uma bela sala de trabalho ouvi um grito vindo do banheiro.

- ai meu Deus, ai meu Deus! Arnaldo chama a polícia! O velho se matou na banheira!

- e olha só, falei expressando curiosidade e acalmando-a, ele usou meu abridor de cartas pra cortar os pulsos.

A minha calma pareceu incomodar Laura. Me retirei e liguei para a polícia. Expliquei tudo, mas a verdade é que não conseguia tirar uma dúvida da minha cabeça, por mais inadequado que fosse o momento para me perguntar isto: quanto será que ele pagava de aluguel?

Arnaldo Pereira




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